Cannabis medicinal para gatos com doenças inflamatórias: o que a ciência já sabe
Muitos tutores de gatos com doenças inflamatórias crônicas chegam ao consultório com a mesma pergunta: “A cannabis medicinal pode ajudar o meu gato?” É uma dúvida legítima, e a resposta honesta é: estudos indicam que ela pode ter um papel em alguns casos, mas a ciência em gatos ainda está em construção, e cada paciente precisa de avaliação veterinária individual.
Neste texto, explicamos o que já se sabe e quais cuidados são indispensáveis.
Que doenças inflamatórias são essas?
Os gatos podem desenvolver diferentes inflamações crônicas, ou seja, inflamações que persistem por semanas, meses ou anos. Entre as mais comuns estão:
- Doença inflamatória intestinal (DII): inflamação crônica do intestino, que pode causar vômitos, diarreia, perda de apetite e emagrecimento.
- Gengivoestomatite crônica felina: inflamação intensa e dolorosa da gengiva e da mucosa da boca, que pode fazer o gato deixar de comer.
- Osteoartrite (artrose): inflamação e desgaste das articulações, muito frequente em gatos idosos e quase sempre silenciosa.
Essas condições costumam exigir tratamento prolongado. O manejo envolve dieta, medicamentos e, em alguns casos, procedimentos como extrações dentárias.
Como a cannabis atua no organismo
Gatos, cães e humanos têm um sistema endocanabinoide: uma rede de receptores e substâncias que ajuda a regular a dor, a inflamação, o apetite, o sono e o humor. Pesquisas já identificaram receptores desse sistema ao longo do trato gastrointestinal dos gatos.
Os fitocanabinoides da planta, como o canabidiol (CBD), interagem com esse sistema. Por isso, eles vêm sendo estudados como possíveis aliados no manejo da dor e da inflamação crônica.
O que os estudos indicam em gatos
As pesquisas em gatos ainda são poucas e, em geral, pequenas. Mas os primeiros resultados ajudam a orientar o raciocínio clínico:
- Gengivoestomatite: um estudo controlado com placebo, publicado em 2023 com 22 gatos, usou CBD junto ao tratamento convencional após extrações dentárias. O grupo que recebeu CBD teve maior melhora em um índice de atividade da doença. As escalas de dor, porém, não mostraram diferença significativa.
- Osteoartrite: um estudo controlado com placebo, publicado em 2025, observou redução dos escores de dor em gatos que receberam uma pasta rica em CBD e CBDA. Quase metade dos gatos, no entanto, não completou o estudo, principalmente porque recusou o produto ou vomitou.
- Doença inflamatória intestinal: até o momento, não há estudos clínicos publicados sobre cannabis em gatos com DII. O interesse vem do papel do sistema endocanabinoide no intestino e de pesquisas em outras espécies, mas ainda faltam dados específicos.
Uma revisão científica publicada em 2025 resumiu bem o cenário: as doses estudadas parecem razoavelmente seguras em curto prazo, mas a eficácia ainda precisa ser confirmada em estudos maiores e mais longos.
Por que gatos exigem cuidados especiais
Gatos não são “cães pequenos”. O organismo felino metaboliza muitas substâncias de forma diferente, e com os canabinoides não é diferente. Alguns pontos merecem atenção:
- Metabolismo próprio: a absorção e a eliminação do CBD em gatos variam bastante conforme o produto, a formulação e até a presença de alimento.
- Sensibilidade ao THC: em estudos, gatos que receberam THC apresentaram letargia, falta de coordenação e tremores. A composição do produto faz toda a diferença.
- Aceitação: muitos gatos recusam o sabor dos extratos, o que pode atrapalhar a regularidade do tratamento.
- Monitoramento: em alguns estudos, houve alteração de enzimas do fígado. Por isso, os exames de sangue fazem parte do acompanhamento.
- Produtos de uso humano: podem conter aromatizantes, óleos essenciais ou concentrações inadequadas para gatos. Nunca ofereça ao seu gato um produto sem orientação veterinária.
Tratamento com segurança
No Brasil, a prescrição de produtos à base de cannabis por médicos-veterinários segue regras da Anvisa e exige receita de controle especial e produtos regularizados.
Quando indicada, a cannabis medicinal entra como terapia complementar. Ela não substitui o diagnóstico, a dieta adequada nem os demais tratamentos. O protocolo é individualizado: começa com doses baixas e é ajustado aos poucos, com reavaliações e exames periódicos.
Se o seu gato convive com uma doença inflamatória crônica e você tem dúvidas sobre terapias integrativas, converse com um médico-veterinário capacitado em medicina endocanabinoide. A Vetsativa é um centro de acolhimento ao paciente de cannabis medicinal e realiza avaliações individualizadas. Fale Conosco!
Referências
- Coelho JC et al. Placebo-controlled trial of daily oral cannabidiol as adjunctive treatment for cats with chronic gingivostomatitis. Animals, 2023.
- Mulder LM et al. Field safety and efficacy study with a cannabidiol/cannabidiol acid-rich hemp paste in cats with osteoarthritic pain. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2025.
- Cital SN et al. Cats and cannabinoids: past, present and future. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2025.
MV. Marlene Reis – Médica-veterinária, CRMV-SP 40419
